Você já parou para pensar que todas as nossas emoções se relacionam com o que comemos? Ansiedade, alegria, tristeza, excitação, hesitação, amor ou falta dele… Isto é porque o alimento não é simplesmente mera consequência, ele também está na origem de nossas emoções.

Numa abordagem inédita, a autora traça a relação entre nossos sentimentos não digeridos e situações mal resolvidas com a comida. Afinal, só deveríamos comer o que temos vontade quando estamos com fome; da mesma maneira que, quando não estamos com fome, devíamos apenas nos permitir sentir o que realmente estamos sentindo, ao invés de atacar a geladeira.

Esconder nossos sentimentos na comida nunca é a solução dos nossos problemas. Geneen acredita que nosso relacionamento com a comida, por mais conflituoso que seja, é a porta para a liberdade.



Não tenho problemas de compulsão alimentar (que eu consiga identificar), mas ver este livro todos os dias na livraria acabou despertando minha curiosidade. A afirmação da autora de que o que comemos tem tudo a ver com as crenças que temos na vida e como vemos a nós mesmas pareceu interessante como ideia central.

O livro fala basicamente de por que algumas mulheres sofrem a vida inteira comendo demais, fazendo dietas intermináveis, engordando e emagrecendo. Entretanto, seu subtítulo, "Uma estratégia inspiradora para quase tudo na vida", faz sentido e faz jus à obra. Mesmo para quem não come compulsivamente.

O argumento central é que é tudo uma questão de aceitação, de serenidade para enxergar a si mesmo, enxergar seu passado, seu presente e seu futuro. Fugimos de nós mesmos por diversas razões e a imagem que formamos de nós mesmos raramente corresponde a quem realmente somos. Comer é uma expressão dessa fuga, assim como o é diversos tipos de compulsão.

"Inferno é estar onde não se deseja".

Se houver aceitação, ninguém precisa se esforçar demais para nada, nem para fazer dietas, nem para procurar defeitos no corpo, ou na vida. Basicamente a autora fala sobre aceitar as sensações, permitir-se sentir feliz, triste, ter consciência de si mesmo. Segundo afirma, a consciência elimina qualquer tipo de compulsão.

Acho que mesmo para quem não come por impulso, vale a leitura.

Num último comentário, o acabamento do livro é simplesmente LINDO. Não só pela arte gráfica, suave e sofisticada, mas até o papel da capa é texturizado. É um daqueles livros tão lindos, que dão vontade de ler.


Mulheres, Comida e Deus - Uma estratégia inspiradora para quase tudo na vida
Geneen Roth
Lua de Papel
192 páginas
ISBN: 978-85-63066-18-3
Furiosamente cínico, desesperançado e de estilo provocativo, o papa do noveau roman e enfant terrible do establishment literário francês Alain Robbe-Grillet morreu no início de 2008. A prosa cáustica e pornográfica deixou rastros de amor e ódio. Seu último trabalho, UM ROMANCE SENTIMENTAL — um conto de fadas para adultos e desprovido de qualquer amarra moral —, fechou com polêmica uma carreira repleta de provocações e originalidade.
Um Romance Sentimental conta a história da pequena Anne-Djinn, ou Gigi, que aos 14 anos recebe uma educação bastante peculiar do pai, com o qual divide a cama. Ele a obriga a ler em voz alta — e nua — textos eróticos do século XVIII. A fim de tomar as lições, aplica pequenos testes à menina, a qual é fisicamente repreendida em caso de erros. A história ganha nuances mais dramáticos quando o pai presenteia a menina com Odile, 13 anos, que se tornará a escrava dos desejos mais sádicos de Gigi.


O livro choca. E muito.

Logo na capa há um aviso de que o livro pode ferir certas sensibilidades, mas ao mesmo tempo diz que é um conto de fadas para adultos. Aí está a chave de tudo: nada tem a pretensão de ser real.

O livro é repleto de imagens repugnantes de incesto, pedofilia, sadomasoquismo e violência, muita violência. Imagens que causam espanto e nos fazem questionar a real necessidade de alguém (qualquer pessoa remotamente sã) publicar um livro deste teor. O autor queria chocar? Qual o motivo disso? Ele estava querendo provar o que e para quem? E afirmo, ler este livro até o final não é tarefa para qualquer um. Por que eu o escolhi? Por curiosidade.

Como em toda história trash, logo percebemos que as coisas são EXTREMAMENTE EXAGERADAS. Em determinado momento, as descrições de violência sexual são tão absurdas, que apesar de nos sentirmos incomodados com tamanho disparate, entendemos também que tudo aquilo não pode ser real. Com a insistência, com a repetição, nos acostumamos ao mau-gosto do livro, com sua real falta de enredo e principalmente com a falta de verossimilhança que permeia tudo. O que não deixa de ser contraditório quando falo que no fundo não foi o pior livro que já li na vida. Perto disso, mas não o pior. A prova é que cheguei até o fim.

É um livro de teor erótico sem dúvida (pornográfico?). Mais do que isso, diria que é um livro de fetiche, portanto, só agradará a quem se interessar pelo assunto. Afirmo uma vez mais que o livro é repugnante sim, mas ele deixa de ser insuportável quando aceitamos que seu único propósito é chocar, nada mais.

E não, não tem nada nem de romance, nem de sentimental.


Um Romance Sentimental
Alain Robbe-Grillet
Record
240 páginas
ISBN: 9788501083845

A Garota Einstein - Philip Sington

Monique >> Sexta-feira, Outubro 22, 2010 >> , , ,
O livro se desenvolve em torno da história de uma moça encontrada num bosque aos arredores de Berlim, desacordada e sem memória, em 1932. Por terem encontrado junto com ela um folheto a respeito de uma conferência que seria dada por Albert Einstein, a imprensa começa a se referir à moça como Garota Einstein.

Seu caso logo é assumido pelo psiquiatra Dr. Martin Kirsch, ele mesmo tendo problemas pessoais significativos, tais como uma doença sem cura e dúvidas sobre seu noivado com uma moça de família rica. Dr. Kirsch se envolve de tal maneira no intrigante caso da paciente, que em diversos momentos somos levados a entender que o médico, conforme descobre detalhes sobre sua história, estava também se apaixonando pela moça.

O livro conseguiu me envolver logo de início, por ser bastante bem construído. Ele possui cartas e relatos em seu meio que só vão fazendo completo sentido quando se avança na história, algo que é bastante interessante. Por não conhecer a história de Einstein, não sei quanto do livro e dos personagens é real e quanto é inventado (a nota histórica ao final não é muito extensa), mas ainda assim tudo me parece bastante coerente.

Além disso, algo que chama a atenção é que o autor sabe apresentar conhecimentos de psiquiatria e de física quântica em doses compactas e de fácil compreensão, o que, além de embasar teoricamente a história, contribui para criar um pano de fundo para as características psicológicas dos personagens, por meio de analogias inteligentes.

Apesar de todos esses pontos positivos, a verdade é que o livro foi decrescendo conforme o fim se aproximava. A história se arrastava sem conseguir me envolver da mesma forma como me envolvia no começo. Aquilo que o leitor era levado a acreditar desde o início realmente se confirma no final, mas as últimas 130 páginas são um aglomerado de fragmentos de história, como se o autor quisesse amarrar muitas pontas de uma vez ou simplesmente quisesse encher linguiça. E digo mais, na minha opinião, nem tudo foi concluído de forma muito convincente, tendo restado algumas lacunas em termos de justificativas para atos dos personagens. Eu diria até que personagens são inteiramente desnecessários.

O livro é bom sim, mas definitivamente ele não consegue terminar com o mesmo fôlego com que começa, foi por isso que ele perdeu uma estrela no meu conceito.


A Garota Einstein
Philip Sington
Alfaguara
351 páginas
ISBN: 9788579620218


Maio
Tema: um Chick-Lit.
Livro reserva: Ela Foi Até o Fim - Meg Cabot


Nem acredito, mas consegui ler dois livros para o desafio de Maio!
Na minha lista oficial havia apenas Melancia e nenhum livro reserva, mas utilizando minhas regalias de colaboradora Saraiva, acabei tendo acesso a mais um chick-lit para o desafio. E o melhor de tudo é que consegui lê-lo praticamente todo num dia só, a tempo de postar a resenha no mês certo. *orgulho*

Não teria como eu ter programado Ela Foi Até o Fim da Meg Cabot, pois quando fechei a lista, este livro sequer havia sido lançado. Mas tudo bem, está valendo, porque o tema é certo (é definitivamente um chick-lit) e o livro oficial foi lido e resenhado no prazo. Sem contar que nunca é demais ler a mais, não é? :D

Vamos então para a resenha:

Ela Foi Até o Fim é um livro de Meg Cabot, conhecia autora de séries de teen chick-lits, como Diário da Princesa, A Mediadora e vários outros títulos avulsos; este foi meu primeiro Meg Cabot. O livro lido saiu pelo selo Galera da Editora Record, especializado em literatura young adult no mês de abril, mas a edição original (She Went All the Way) data de 2002.

O livro conta a história de Lou Calabrese, uma famosa roteirista de Hollywood numa aventura gelada no Alasca. A sequência de um de seus filmes de ação de maior sucesso está sendo gravada em Myra, no Alasca, e Lou se vê forçada a viajar para o set e convencer o diretor Tim Lord a abandonar a ideia original de explodir uma mina abandonada como parte das aventuras do detetive Pete Logan, cedendo às pressões de ambientalistas locais.

A caminho do set, Lou se vê presa a uma situação desagradável: terá que viajar de Anchorage para Myra no mesmo helicóptero que Jack Townsend, ator que interpreta Pete Logan. Jack, que já protagonizara outros filmes de Lou, caíra nas desgraças da moça ao mudar uma das frases do roteiro e criar um bordão próprio para seu persoangem. Um bordão que não havia sido criado por Lou, a "dona" do personagem. A frase "Preciso de uma arma maior" caiu na boca do público, deixando Lou com o orgulho ferido.

Se não bastasse, todos os jornais de celebridades estavam publicando a notícia de que o ex de Lou Calabrese, Bruno di Blase, estava se casando com a ex de Jack Townsend, Greta (alguma coisa). Roteirista e ator famosos uniriam forças para lidarem juntos com a humilhação pública? Bem, os dois se odeiam, eu disse.

A caminho do set, ambos são surpreendidos por uma tentativa de assassinato contra Jack ali mesmo, dentro do helicóptero. A isso se segue uma história de perseguição que agora incluía a incrédula Lou Calabrese, por estar no lugar errado e na hora errada. O avião cai, os dois se salvam, fogem, passam por maus momentos juntos e em meio a brigas acabam passando uma noite inesquecível um nos braços do outro.

A certo ponto, contrariando as expectativas, após dois dias perdidos pelas florestas geladas do Alasca, os dois conseguem voltar ao hotel em segurança, mas um novo problema surge: afinal, quem é que está querendo assassinar Jack? E por quê? É um fato que o leitor só descobre lá pelas últimas 50 páginas do livro.

A leitura foi no começo sem graça. Mas depois surpreendente e por fim, sem graça. Eu diria que o começo confunde, pois a autora apresente mil personagens num espaço muito curto de tempo, talvez ao longo das 15 primeiras páginas. Quando a história se concentra em Lou e Jack fugindo, as coisas ficam melhores, mas o estilo da narrativa a meu ver é pobre, não sei explicar direito. Estilo entretenimento barato, sabem?

Levei um susto quando a autora começou a descrever as cenas de sexo um tanto graficamente. Não é por ser casta nem nada, mas achei que era o tipo de cena que não cabe tão bem num livro young adult. Quer dizer, pelo menos não costumo ver cenas de sexo oral descritas com certo nível de detalhe num livro voltado para um público mais jovem. Geralmente os autores dão aquela disfarçada, economizam nos detalhes e deixam para a imaginação de quem quiser para não se comprometerem.

Tudo bem, entendo que o Galera busca um público ligeiramente mais velho que o Galera Record, voltado para o público adolescente mesmo (É só dar uma olhadinha na abertura do site do selo para ver os públicos alvo), mas mesmo assim. Se eu tivesse escolhido o livro apenas pela linha editorial do selo, tinha levado um susto maior ainda, porque para literatura adulta, a Record tem outros selos. Vários, aliás. E a própria Meg Cabot assina como Patricia Cabot na sua literatura adulta.

Enfim, o conteúdo do livro é o que eu tenho em mente como literatura jovem mesmo, mas achei algumas coisas um pouco incoerentes com o resto, that's all. Vou sair recomendando o livro lá na livraria para alguém de, digamos, 16 anos assegurando aos pais preocupados que não tem nada impróprio no livro? Não posso. É isso que eu penso quando digo que se o conteúdo dos livros estivesse totalmente adequado àquilo a que o selo se propõe, facilitaria muito a minha vida na loja.

No fim das contas, assim como em Melancia, não achei o livro bom, mas também não ruim. Fiz a proeza de ler cerca de 350 páginas num dia só, o que serve de prova de que o livro não era detestável (se bem que eu tentei ler rápido para poder devolvê-lo hoje, meu prazo limite). Algumas partes, como comentei de leve, foram interessantes, apesar de serem bastante previsíveis. Quem nunca viu o casal que briga, briga e depois se casa apaixonadamente?

Aliás, não gostei do final no estilo de "e eles viveram felizes para sempre". Muito menos com a estrutura de parágrafos curtos como pequenos epílogos de filme, contando o que aconteceu com cada um dos personagens depois do fim da história.

E num último comentário sobre o título: ridículo. Ele é tradução quase que literal do título original, mas o original já era ridículo antes.

E a conclusão conclusiva é a de que acho que o livro nunca foi lançado para ser uma leitura pretenciosa e, nesse aspecto, cumpre o papel. A questão é que, apesar de cansar de ler vários títulos do que eu chamaria de "entretenimento barato", tendo a valorizar mais as leituras mais pretenciosas do que essa, digamos assim. E mesmo na linha do "entretenimento barato", já li livros bem melhores e com trama mais envolvente.

Daria umas duas estrelas e meia (de 5).
Quem não entendeu o título por favor levante a mão. Ok, ok, existe "Emília no País da Gramática", do Monteiro Lobato. Eu simplesmente não pude evitar a referência literária, pois, afinal, o tema de hoje é literário... gramatical... enfim, linguístico.

O assunto surgiu na minha cabeça durante a leitura de Melancia, da Marian Keyes (isso, o tema do post anterior). Por algum motivo, eu tinha uma super ideia de que Melancia seria engraçado. Eu não sonhei, tenho certeza que cansei de ler comentários a respeito deste livro dizendo que ele era super divertido, hilário, até. Pensei: bem, já que não costumo ler chick-lits, então vou escolher um "clássico", por assim dizer.

Acabou que me decepcionei, pois não entrei de cabeça no humor da autora. Na própria resenha eu disse que algo ia errado... Talvez eu tenha compreendido. O problema pode estar tanto na tradução, quanto no tipo de humor empregado.

Deixem-me explicar.

Não consegui detectar nenhum problema de tradução assim só lendo a versão brasileira Herbert Richers do negócio. Digo isso, pois em alguns casos, para quem conhece a língua inglesa, algumas traduções são tão esquisitas, que conseguimos entender até o que o autor quis dizer (que não foi aquilo que o tradutor escreveu), e entender que algo está muito errado sem mesmo ler o original. Acreditem, isso é fácil de perceber. Traduções literais de expressões idiomáticas são os erros mais graves. Sério, será que não tem nenhum revisor available?

Bem, este não é o caso de Melancia, pois a culpa não é da tradutora. O problema estaria, ao meu ver, no fato de que boa parte da graça reside no jogo de palavras usadas por Marian Keyes, no estilo de escrita, na escolha de expressões. Não adianta, isso não tem como ser reproduzido no português. Não adianta me dizerem que dá, porque é mentira. E também não é um caso exclusivo desta escritora. Eu simplesmente tendo a achar que traduções são sempre meros arremedos dos originais, por mais dedicados que sejam os tradutores.

E isso em parte tem a ver com o segundo aspecto da minha crítica: o humor é uma questão cultural. Não tenho dúvidas de que na Europa o humor da Keyes é melhor compreendido. Digo isso, por exemplo quando a personagem Claire debocha de si mesma (o que é tipicamente inglês) ou quando faz piadas preconceituosas a respeito de gente de outros países. Algo como uma família barraqueira "como se fosse italiana". Ou alguma coisa relacionando nudez e Suécia. O sotaque australiano relacionado a determinado tipo de pessoa, ou ainda "a recepcionista falava como se fosse estrangeira, mas era porque ela era grega". Essa crítica mútua entre os europeus de diferentes nacionalidades é marcadamente... oras, europeia. (Entendem aqui a Austrália como uma hipotética extensão da própria Europa)

No Brasil até se fala que italiano costuma ser enérgico, falar alto, ser temperamental (hey, sou italiana também!), mas a forma como Keyes enfatiza essa paixão toda do italiano só tem graça mesmo na Europa.

Sabe-se que o pessoal da Escandinávia tem uma outra relação com o corpo... Em suas manifestações artísticas, eles aceitam bem mais a nudez do que a violência, por exemplo. O próprio Alexander Skarsgård (O Eric de True Blood) disse que na Suécia os pais não ligam que seus filhos vejam cenas de nudez na TV, mas que não aceitam tão bem assim as cenas de violência. Nos EUA, seria exatamente o contrário: violência pode; bunda, não. Mas a questão é: para nós tem graça Claire fazer uma referência maldosa à nudez sueca? Bem menos do que lá, podem ter certeza.

Ou mesmo se pensarmos no outro lado. Tanto nos EUA como na Europa os irlandeses são conhecidos por beberem muito. Os persoangens de Marian Keyes bebem de monte; a própria autora é irlandesa, assim como a personagem Claire. E aposto que esse pequeno detalhe é muito menos significativo para o leitor brasileiro médio, do que para leitores de outros países.

Posso ir mais além? Comédia americana. Vamos falar a verdade, elas não têm absolutamente a menor graça. E a comédia inglesa? Não é diferente? A prova maior talvez seja o seriado The Office, que precisou ser refeito antes de chegar aos EUA. O original é britânico, mas não faria o menor sucesso nos EUA, porque os marcos culturais que norteiam a comédia britânica não são os mesmos do que o fazem nos EUA. Foi por isso que se fez uma versão americana do seriado.

E se a gente não for falar de comédia? Se formos falar simplesmente de estilo literário? Leiam um bom romance brasileiro e leiam outro traduzido (de qualquer língua que seja). A leitura do brasileiro costuma ser mais interessante, pois ele é construído estritamente sobre nossos próprios marcos culturais, nossa língua materna. Tudo é melhor: a sonoridade, a fluidez do texto. Para mim isso é muito evidente no Machado de Assis. Por mais que o português dele já seja antiquado, é natural. Não deve ter a menor graça ler Machado em inglês. (Nem vou falar de Guimarães Rosa, porque não quero apelar)

Também nem preciso chegar no Machado, se não quiser. Li recentemente Chico Buarque (Leite Derramado), Michel Laub (O Gato Diz Adeus) e Ismael Caneppele (Os Famosos e os Duendes da Morte) e eu percebi a lígua portuguesa claramente em ação nestes textos.

É, eu gosto do português. Gosto daquilo que só nossa língua pode oferecer, daquelas sutilezas que só fazem sentido para nós, aquilo que só quem fala esta língua desde que nasceu é capaz de construir e apreciar. Não é uma defesa cega da língua em si. Talvez, se eu tivesse nascido na Finlândia, diria que a sonoridade do finladês é poética por si só, algo que só o finlandês nato compreende (o que é verdade).

Aliás, aqui lembro do que o Ville falou de um poeta que carrega tatuado em seu antebraço: Timo K. Mukka. É um poeta finlandês que passou a vida toda na Lapônia e que escrevia em grande parte sobre sua realidade e relação com o meio que o cercava. Ville acredita que é impossível fazer jus a Mukka numa tradução do finlandês sob pena de perder a essência do seu texto. É algo culturalmente bastante delimitado e cujo grande mérito está justamente em entender o que é ser lapão, viver na Lapônia e falar finlandês (provavelmente permeado do dialeto lapão). Em outras línguas deve fazer bem menos sentido.

Enfim, como nasci falando português (isto é, eu não sabia falar quando nasci, obviamente), tenho que admitir que gosto mesmo é da nossa língua, apesar de ser, para ser justa, uma espécie de entusiasta linguística, ou algo do tipo, achando interessante aquilo que todas as línguas têm de particular, especialmente a lógica esquisita (pelo menos para nós) sob a qual algumas expressões idiomáticas são construídas. Sim, expressões idiomáticas são o que eu mais gosto.

E por tudo o comentado, talvez a principal conclusão seja que os livros só têm mesmo graça no original. Mesmo que não se necessite de uma bagagem cultural para entendê-los, ao menos a fluidez do texto original se perde com muita facilidade nas traduções. Acredito inclusive, que uma tradução bem feita dá muito trabalho e ainda assim não fica perfeita.

E sinceramente? Acho que Melancia não empolga justamente porque o humor da autora e da personagem não é o nosso humor.